quarta-feira, 20 de junho de 2012

10 anos [série Duartão]

Hoje faz dez anos que meu pai se foi. A saudade está sempre aqui, mas nessas datas ela aperta mais. E parece que numa data redonda assim, ela aperta mais ainda. Foda isso. Faz meses que me pego pensando em momentos que gostaria muito de ter compartilhado com ele, e desde então venho lentamente escrevendo este post especial.

Duartão não estava na minha formatura do colegial. Ele fez falta. Na minha do ginásio ele participou, mas nos bastidores. Foi assistir, ficou lá no fundo (tipo um anjo torto, desses que vivem pelas sombras, caminhando do nosso lado, mesmo que por um breve momento). Ele já estava mal, tanto que faleceu uns seis meses depois.

Não tive a companhia dele durante o colegial, não pude dividir com ele a felicidade de conseguir um estágio ainda nessa época. Era cansativo pra cacete, mas gostava de ganhar meus trocados. Sim, trocados, porque eu recebia o equivalente a uma bolsa-miséria, mas recebia. Não sei que efeito isso teria na cabeça dele. Mas de qualquer jeito, ele ficaria feliz por mim, eu acho.

Passei em duas faculdades. E ele não estava lá pra comemorar comigo. Vale lembrar que ele torcia o nariz quando eu dizia que queria prestar História e ser professora. Assim como toda a torcida do Flamengo, ele me dizia que era melhor prestar algo que me daria mais retorno financeiro etc. Eu não quis. Sou teimosa como uma mula e puxei isso dele. Ok, não só dele, mas dele também, sem sombra de dúvidas.

Primeiro passei em Psicologia no Mackenzie (algo que foi importantíssimo na minha vida, pois foi de lá que cheguei em alguns dos amigos mais queridos que eu tenho hoje). Um tempo depois passei na USP e, melhor, no curso que realmente queria. E faltou ele pra comemorar comigo. Sem pestanejar, cancelei o Mackenzie e fui-me embora pra USP. Não sei se ele ia aprovar isso. Mas eu fiz. E acho que, no fundo, ele ia ficar feliz por me ver tomando decisões sobre a minha vida, mesmo não concordando totalmente com elas.

Foram seis anos de graduação. Período recheado de altos e baixos. E eu pensando “se ele estivesse aqui seria mais fácil... meu, queria ele do meu lado AGORA”. Acho que ele até estava, e está, lá pra mim, mas não do jeito que eu queria e quero, do meu lado de forma física. Isso já faz tempo que eu não tenho e o jeito é ir lidando com a falta.

Ele não estava aqui pra aproveitar o apartamento confortável no qual moramos hoje, assim como não estava quando comecei a trabalhar no Arqshoah. Acho que ele teria gostado de conversar comigo sobre meu trabalho lá. Ele era bem inteligente e informado. Iam rolar umas conversas legais.

Bom, eu não tive formatura na faculdade. Meu curso não tem. Simples assim. Céus, é um parto pra família entender isso. Chega a irritar. Mas teria sido ótimo ter precisado desenhar pra ele também entender. Ia fica meio puto, eu acho.

Ele não está aqui pra opinar sobre o meu trabalho atual. Sabe como é, trabalhar em editora ocasionalmente demanda MUITO tempo do funcionário. Fechamento de material pode ser um pesadelo. E nessa a família e amigos xingam pra caralho. Também pudera: meus colegas e eu ficamos sem vida própria durante um bom tempo. A gente mesmo xinga. É puxado. Mas a família xinga mais ainda. E ele ia ficar virado no cão. Mas ia ser ótimo conversar com ele sobre os materiais. Duartão foi gráfico e manjava do trabalho que fazia. Eu nunca mais entrei numa gráfica (ia na dele quando era pequenininha), mas se um dia precisar ir em uma a trabalho, vou querer comentar com ele, mas não vou poder.

Meu pai estava muito longe de ser perfeito. Muito mesmo. Mas apesar das lembranças que doem, prefiro lembrar do que foi bom. Ele foi o melhor pai do mundo. Minha tia vai discordar e dizer que meu avô que é o melhor pai do mundo. Mas ela precisa entender que meu pai aprendeu com o melhor antes dele e superou o mestre. Isso acontece. Alguns pupilos superam seus mestres. Meu pai foi um deles.

Agora, com vocês, uma das músicas que mais me lembra o Duartão e, não raro, me leva as lágrimas (como se precisasse de muito pra me fazer chorar, também ¬¬).


E quanto a você, seu monstrengo, vai fazer falta assim na puta que pariu! :'(

Um comentário:

Insônio disse...

Querida, já são alguns minutos que eu estou aqui com essa janelinha de comentário aberto, sem ter a menor ideia do que comentar. Essa noite, por algum motivo, eu tive medo de perder meu pai. Ele está bem, não tá doente e é um cara saudável, mas como todo mundo ele corre um risco. E só de pensar, a dor no peito foi grande de mais pra ser suportada.

Eu não sei qual era a aparência do dia quando ele se foi, se há dez anos atrás o dia estava como hoje, nublado, frio, garoando. Sei que de uma forma ou de outra, tenho certeza que Duartão fez o que pôde e o que não pôde (como comer coxinha quando não podia, por exemplo) para estar com a Duartinha em todos esses momentos que foram citados.

Saudade é uma coisa que fica, que filosofia nenhuma pode explicar, mas que é extremamente natural do ser humano. E sim, tocar em frente, provavelmente é o que deve ser feito. Apesar dos pesares (e quantos são eles!), a vida continua, por mais dez, vinte, trinta...